Estreia de Angels in White (白衣逆行者) reacende memórias do lockdown e divide opiniões enquanto mercado cinematográfico chinês enfrenta queda
Um filme tardio e controverso
Seis anos após o término das filmagens, Angels in White (白衣逆行者) enfim chega às salas de cinema da China. O drama, que remonta os primeiros dias do surto de Covid-19 em Wuhan e a sequência de 76 dias de confinamento, reúne cenas de hospitais, profissionais da saúde e cidadãos comuns unidos no combate à pandemia.
Jornada de produção e adiamentos
As gravações foram concluídas em dezembro de 2020, em Shenzhen, após pouco mais de um mês de filmagens. Inicialmente apresentado como Angels in the Fight Against Covid (战疫天使), o projeto teve seu nome alterado e permaneceu engavetado por anos. Analistas de mercado de cinema e blogueiros especializados apontam que a ausência do novo título nos registros oficiais até 2023, além da sensibilidade do tema, pode ter exigido reedições, refilmagens e adequações para obter a licença de exibição.
Em meados de 2025 a produção obteve autorização pública de exibição junto à administração cinematográfica nacional e chegou a ter uma data anunciada para agosto — que não se concretizou. Só em 18 de outubro de 2026 surgiu o novo agendamento: estreia nacional em 6 de novembro.
Elenco e equipa técnica
O filme traz o astro de Hong Kong Andy Lau (刘德华) ao lado da atriz mainland Yang Zishan (杨子姗), sob a direção de Herman Yau (邱礼涛), com quem Lau já trabalhou em sucessos de ação como Shock Wave e The White Storm 2. A combinação de nomes consagrados e um tema sensível contribuiu para a atenção antecipada à obra.
Reações nas redes: apoio e rejeição
O material promocional do filme — trailer e cartaz — provocou reações polarizadas nas plataformas sociais. Parte do público celebrou a oportunidade de revisitar um período marcado por sacrifícios e solidariedade, vendo no longa um tributo aos profissionais de saúde e uma lição sobre o valor da vida.
Em contrapartida, muitos usuários, em especial residentes de Hubei e Wuhan, manifestaram resistência. Comentários locais pediram que o filme não fosse exibido na cidade, afirmando que reviver aqueles dias ainda representa uma dor muito recente. Críticas também surgiram sobre a possível abordagem do roteiro, que, segundo alguns, poderia priorizar o heroísmo institucional em detrimento de relatos mais complexos e pessoais.
Debate sobre narrativa e memória
Observadores culturais ressaltam que transformar memórias coletivas traumáticas em narrativa cinematográfica é um exercício delicado: impor um enredo uniforme a experiências fragmentadas pode gerar rejeição. Para alguns críticos, a expectativa é de que o filme encontre um equilíbrio entre homenagem e honestidade emocional.
Contexto econômico do cinema chinês
A estreia de Angels in White ocorre em um momento de enfraquecimento do mercado cinematográfico chinês. Relatórios recentes mostram queda acentuada na arrecadação: nos primeiros seis meses do ano, a receita total foi de 17,4 bilhões de RMB — cerca de 40,6% a menos que no ano anterior — e o público nas salas caiu de 641 milhões para 422 milhões de ingressos. Durante feriados, a bilheteria voltou a crescer de forma pontual, mas o padrão de consumo indica concentração em poucos blockbusters e fragilidade no restante da programação.
Analistas citam vários fatores para a retração, incluindo a concorrência de vídeos curtos e micro‑dramáticos, a falta de obras de médio orçamento que sustentem a bilheteria nos meses comuns e a fadiga do público em relação a filmes patrióticos que utilizam fórmulas narrativas previsíveis.
O teste de Angels in White
Especialistas em cinema consideram a estreia um experimento de mercado: com menos competição num período fora das grandes temporadas, a distribuição busca aproveitar janelas vazias na programação. Ainda assim, a sensibilidade do tema e a demanda por narrativas mais complexas tornam incerta a performance comercial do título.
O que está em jogo
Além das receitas, Angels in White é mais um teste sobre como a indústria chinesa lidará com histórias recentes e dolorosas. O filme pode servir tanto para reafirmar uma mensagem de resiliência quanto para evidenciar a necessidade de abordagens menos conformadas em filmes de tema coletivo. Resta saber se o público, dividido entre saudade, cansaço e dor, responderá em massa às salas de cinema ou manterá a distância.
Enquanto isso, profissionais do setor e espectadores acompanham a estreia, atentos às reações locais em Wuhan e ao desempenho nas bilheterias, indicadores que podem pautar decisões futuras sobre produção, censura e o equilíbrio entre memória e narrativa.
Até a próxima notícia!!
Redação Doramazine
Fonte e Imagem: Think China







