ARIRANG Tour: a jornada emocional do BTS entre han, heung e amor
Dividir um show em três atos pode parecer só uma escolha de produção — uma forma de organizar músicas, VCRs, trocas de figurino. Mas na BTS WORLD TOUR ‘ARIRANG’ essa divisão carrega o recado inteiro do espetáculo, e isso não é teoria de fã: a própria equipe contou à Weverse Magazine que a turnê foi montada em cima de três conceitos, nesta ordem:
한 (Han) → 흥 (Heung) → 사랑 (Amor)
Cada um ligado a uma camada diferente: BTS → KOREA → ARIRANG.
Quando você junta esses conceitos com as músicas escolhidas, a arquitetura do palco e os elementos tradicionais coreanos, dá pra ler o show como uma resposta a três perguntas: quem somos, de onde viemos, e o que nos mantém juntos depois de tudo isso.
Antes dos três atos: o que é Arirang
“Arirang” não nasceu com o BTS. É uma tradição de canções folclóricas coreanas, passada e reinventada por gerações — melodia e letra mudam de região pra região. O que interessa aqui é uma característica específica: dentro de Arirang, sentimentos opostos convivem. Dor e movimento. Saudade e esperança. Separação e continuidade.
Foi justamente essa dualidade que guiou a produção. Segundo o diretor do espetáculo, uma das questões centrais na criação era como ligar a canção folclórica ao álbum ARIRANG do BTS — e a resposta apareceu quando perceberam que, dentro de uma melodia de lamento, também mora um ritmo capaz de gerar energia. Eles chamaram isso de encontrar 흥 (heung) dentro de 한 (han).
A ARIRANG Tour não tenta apagar sentimentos difíceis pra chegar na felicidade. Ela atravessa os dois.

Ato I — BTS: han, aquilo que se carrega
Traduzir han como “tristeza” simplifica demais. Han envolve dor acumulada, ressentimento, saudade, perda, frustração, desejo — uma persistência emocional diante do que não pôde ser resolvido.
Por isso a escolha do primeiro ato importa: ele não leva o nome “KOREA”, nem “ARMY”, nem “ARIRANG”. Leva o nome BTS. O diretor explicou o motivo: o álbum nasceu depois de cerca de quatro anos sem turnê completa do grupo, com os membros preocupados sobre como corresponder à expectativa em torno do retorno. O primeiro ato olha pra dentro antes de celebrar quem o BTS se tornou.
Alguns momentos do repertório deixam isso claro. Em “Run BTS”, J-Hope cita cada membro individualmente enquanto reconhece o esforço deles — Jimin, V, RM, ele mesmo, SUGA, Jin, Jung Kook — e as câmeras mostram os rostos um a um. A própria Weverse Magazine lê essa sequência como um reconhecimento dos anos difíceis. “Run BTS” já falava de movimento e ambição; aqui, correr também significa sobreviver ao caminho. O show não apresenta o BTS só como os sete homens que chegaram ao estádio — lembra dos sete que precisaram continuar correndo até chegar ali.
A presença de “SWIM” e “Merry Go Round” lado a lado também diz algo: enquanto “SWIM” fala de esperança em meio à repetição da vida, “Merry Go Round” expõe tédio e desgaste. Han não é só “a parte triste do show” — é a contradição de querer continuar e estar cansado ao mesmo tempo, de ter esperança e sentir o peso do que ficou pra trás. Depois de 13 anos, o grupo não volta como personagem congelado no auge; volta como gente transformada por essa história.
Um detalhe visual: em “SWIM” a turnê usa tecidos brancos inspirados no Seungmu, dança tradicional coreana conhecida pelo movimento das mangas longas. Ou seja, a Coreia já está presente antes mesmo do ato oficialmente chamado “KOREA” — na estética, no movimento, na arquitetura. Han já contém heung; BTS já contém Korea; e Arirang começa bem antes do último ato.

Ato II — KOREA: heung não é só “felicidade”
Depois do peso do primeiro ato, vem a virada pro 흥 — heung, outra palavra difícil de traduzir de forma exata. É a energia contagiante do entusiasmo que cresce quando compartilhada, aquela vontade quase física de entrar no ritmo. O diretor resumiu com simplicidade: mostrar o heung dos coreanos quando simplesmente se soltam pra aproveitar.
Daí vêm performances como “FYA” e “FIRE (FYA mash up)”, feitas pra explodir o estádio em movimento — até chegar no ponto alto: “Body to Body” → “IDOL”.
1988 escondido na turnê. RM contou que “Body to Body” se inspirou em “Hand in Hand”, música oficial dos Jogos Olímpicos de Seul de 1988, interpretada pelo Koreana. A referência não parou na música: segundo o diretor, a encenação de “Body to Body” e “IDOL” também bebeu da cerimônia de abertura de Seul 88, especialmente das imagens do Ganggangsullae e da entrada das delegações. Isso explica os 50 dançarinos de origens diferentes dividindo o mesmo espaço — pessoas diferentes no mesmo círculo, corpos diferentes no mesmo ritmo, um grupo coreano no centro de um estádio internacional cantando uma canção tradicional coreana que boa parte do público talvez nem entenda no idioma original.
O círculo importa porque o Ganggangsullae é tradicionalmente dançado em roda, e roda não tem fim visual — as pessoas seguem conectadas. Isso conversa direto com a arquitetura da ARIRANG Tour: o palco central foi inspirado no Gyeonghoeru, o pavilhão do Palácio Gyeongbokgung usado em banquetes e ocasiões da corte. O anel central do chão vem do Taegeuk, o símbolo vermelho e azul da bandeira sul-coreana, e as passarelas que saem do centro remetem aos quatro trigramas Geon, Gon, Gam e Ri, também da bandeira. O próprio estádio é uma abstração da Taegeukgi. E vista de cima, a estrutura superior — inspirada num nu (樓), pavilhão tradicional — também lembra o contorno do logo do BTS. A produção sobrepôs arquitetura coreana, bandeira e identidade visual do grupo numa coisa só; não é decoração ao redor do BTS, é a estrutura falando por eles.
Durante “MIC Drop” no show de abertura em Busan, dia 12 de junho, RM disse: “전원 한국산” — algo como “todos feitos na Coreia”. A Weverse Magazine liga essa fala direto a uma das bases da produção: mostrar um BTS “enraizado na Coreia”. Tem diferença entre dizer “somos artistas coreanos conhecidos mundo afora” e dizer “nossa identidade coreana pode ocupar o centro de um espetáculo mundial sem precisar ser diminuída pra isso” — e talvez seja aí que o segundo ato ganhe peso na trajetória do grupo: em vez de abandonar a origem pra parecer “universal”, eles transformam o que é específico numa linguagem compartilhável.
O exemplo mais claro disso é o momento em que o estádio inteiro canta “Arirang” durante “Body to Body” — gente de dezenas de nacionalidades cantando uma melodia coreana. Em Stanford, fãs chegaram a levantar bandeiras sul-coreanas cantando junto. Jin contou à Weverse Magazine que ver o público internacional cantando aquele trecho parecia cena de filme, e comparou à forma como o yodel dos Alpes ficou conhecido no mundo todo — falou da felicidade de apresentar uma música folclórica do seu país pra fãs do planeta inteiro. J-Hope foi além: pra ele, pessoas superando diferença de idioma, raça, região e gênero e virando uma coisa só através do amor é um dos pontos centrais da turnê.
O segundo ato começa como KOREA, mas não termina isolando a Coreia do resto do mundo. Termina convidando o mundo pra dentro.

Ato III — ARIRANG: amor, o que vem depois do “eu” e da origem
A palavra do terceiro ato parece a mais simples das três — 사랑, amor — mas talvez seja a mais complicada. A produção explicou que esse ato conecta “Arirang” à pergunta que atravessa o álbum inteiro: “What is your love song?”. A ideia era levar ao limite o vínculo entre BTS e ARMY.
Um detalhe bonito: apresentar músicas antigas diferentes a cada show, numa seção variável, já estava na “bucket list” dos membros havia tempo. A equipe queria um momento pensado só pros fãs, em que cada apresentação carregasse uma memória particular — o que muda o sentido de revisitar o catálogo. Uma música de 2015 não pertence só ao BTS que a gravou naquele ano; pertence também a quem a encontrou ali, a quem chegou em 2018, em 2021, e às baby ARMYs ouvindo ao vivo pela primeira vez em 2026. O passado deixa de ser arquivo e volta a acontecer.
Por que o amor vem por último? A produção confirmou a ordem han → heung → amor; a leitura a seguir é interpretação nossa. O amor que fecha a turnê não parece inocente — é um amor que chega depois da dor, do esforço, do tempo, da separação, da celebração, do reconhecimento de onde se veio. Por isso ele carrega tudo: han não some quando heung chega, heung não some quando o amor chega. O terceiro ato contém os dois anteriores, do mesmo jeito que Arirang carrega tristeza e movimento na mesma canção.

BTS → KOREA → ARIRANG
Reorganizando os conceitos que a própria produção estabeleceu, dá pra enxergar outro percurso: eu → origem → nós. (Essa segunda leitura não é definição oficial do BTS ou da BIGHIT MUSIC — é interpretação editorial da estrutura do show.) O primeiro ato pergunta quem somos depois de tudo que aconteceu; o segundo, de onde vem aquilo que somos; o terceiro, com quem a gente divide essa história. Primeiro o BTS olha pra si, depois pra suas raízes, por fim pro público.
Até a saída do palco fecha essa ideia. Depois de “Into the Sun”, os membros deixam o palco central e caminham até o portão abaixo das arquibancadas — não terminam elevados numa plataforma com o estádio olhando pra cima. Eles descem e caminham em direção ao público. A própria produção lê esse encerramento como o BTS voltando pra ARMY, carregando han, heung e tudo que acumularam pelo caminho. Depois de horas de narrativa sobre identidade, origem e conexão, a última ação é movimento outra vez — como atravessar um arirang gogae, um “passo” ou “colina de Arirang”, sabendo que existe outro encontro adiante.
Talvez ARIRANG nunca tenha sido só o terceiro ato
Oficialmente: han é BTS, heung é Korea, amor é ARIRANG. Mas talvez o título da turnê aponte pra algo maior — Arirang não precisa existir só no final, pode ser o próprio movimento entre os três estados. A dor que não impede o movimento. A alegria que nasce mesmo com cicatrizes. A memória de onde você veio. A vontade de continuar. E alguém caminhando ao seu lado.
É por isso que uma das ideias centrais de “Body to Body” é reduzir distâncias: o álbum começa querendo encontrar alguém; o show termina aproximando o BTS de quem estava ali na frente deles. Entre uma coisa e outra, treze anos, sete pessoas, e milhões que chegaram em momentos diferentes de uma carreira que nasceu na Coreia e se espalhou por estádios do mundo inteiro.
No primeiro ato, o BTS carrega sua história. No segundo, assume sua origem. No terceiro, divide as duas com a ARMY.
Han. Heung. Amor. Não três sentimentos separados — um ciclo. Encontrar heung dentro do han não é esquecer o que doeu, é descobrir que ainda dá pra cantar apesar disso. E amar, depois de atravessar os dois, é poder olhar pra alguém e dizer: eu carreguei tudo isso até aqui — e agora a gente pode seguir o caminho junto.
É nesse ponto que ARIRANG deixa de ser só o nome de um álbum, de uma música tradicional ou de uma turnê, e vira uma forma de contar a própria história do BTS: quem somos, de onde viemos, e quem segue caminhando com a gente.
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Até o próximo post!!
Marcela Fábio
CEO e Editora Chefe
Texto e Imagem: Doramazine
Ler o report oficial da ARIRANG World Tour na Weverse Magazine







