Home / Tudo / BTS, o intervalo da Copa e o racismo disfarçado de opinião

BTS, o intervalo da Copa e o racismo disfarçado de opinião

Preconceito Disfarçado: Como o Sucesso do BTS na Copa do Mundo Revelou o Racismo Velado

Além da Música: A Luta do BTS Contra o Racismo e a Xenofobia no Palco da Copa do Mundo

No domingo, dia 19 de julho, o BTS entrou para a história ao se tornar uma das atrações do primeiro show de intervalo já realizado em uma final de Copa do Mundo. Ao lado de nomes como Madonna, Shakira, Justin Bieber e Burna Boy, o grupo sul-coreano cantou “Dynamite” no MetLife Stadium, em Nova Jersey, para um público global de bilhões de pessoas. Foi um marco simbólico: pela primeira vez, um grupo de k-pop dividia o palco mais assistido do esporte mundial com lendas da música ocidental, em pé de igualdade.

Bastou, porém, algumas horas para que essa conquista fosse ofuscada por uma onda de comentários que pouco tinham a ver com música e muito a ver com preconceito.

O caso que expôs o problema

Uma influenciadora de extrema direita, que soma mais de um milhão de seguidores e costuma produzir conteúdo sobre religião, política e comportamento, publicou um texto duro sobre a apresentação. Disse ter sentido “vergonha alheia” ao assistir ao grupo e resumiu os sete artistas como um bando de homens “afeminados, vaidosos e cheios de caras e bocas”. Questionou, ainda, como esse grupo poderia ser referência para a geração atual.

A publicação viralizou rapidamente, e não pelos motivos que a influenciadora provavelmente esperava. Fãs de k-pop e a comunidade Army reagiram em peso, e o fã-clube oficial brasileiro B-Army 360 chegou a divulgar uma nota de repúdio, afirmando que reduzir pessoas a um único padrão de aparência ou comportamento reforça estigmas ultrapassados e alimenta a intolerância e a xenofobia. Diante da repercussão, a influenciadora apagou o post original e restringiu comentários e interações no perfil.

Vale registrar: o problema aqui nunca foi Pietra ter uma opinião sobre a performance. Toda apresentação é passível de crítica musical, de palco, de escolha de repertório. O problema é o vocabulário escolhido para expressar essa opinião — um vocabulário que não fala sobre técnica vocal ou coreografia, mas sobre a masculinidade dos artistas, atacando justamente aquilo que os diferencia dos padrões ocidentais de expressão de gênero.

Um padrão, não um incidente isolado

Quem acompanha o BTS de perto sabe que esse tipo de reação não é novidade. Em 2020, um dos redatores do programa de rádio de Howard Stern, nos Estados Unidos, insinuou ao vivo que os integrantes do grupo estariam espalhando o novo coronavírus só por serem asiáticos — uma fala que o próprio apresentador, avesso a meias palavras, classificou publicamente como racista. O episódio ficou marcado como um dos exemplos mais claros de como a xenofobia contra artistas asiáticos se disfarça de “piada” ou “opinião sincera” em veículos e perfis ocidentais.

O que une esses episódios é uma mesma lógica: quando um grupo asiático não se encaixa nos códigos tradicionais de masculinidade branca e ocidental — maquiagem, cabelos coloridos, movimentos coreografados, expressividade emocional — a reação de parte do público não é indiferença, é hostilidade. Chamar artistas homens de “afeminados” como ofensa é usar a orientação sexual e a identidade de gênero como arma, mesmo quando a intenção declarada é “só” criticar uma apresentação.

O que o k-pop representa — e por que isso incomoda

O BTS não chegou a um palco de Copa do Mundo por acaso. É fruto de mais de uma década de trabalho que redefiniu o que significa ser um artista pop global sem cantar em inglês, sem seguir os moldes ocidentais de masculinidade e sem pedir licença para existir. Essa ruptura é, para uma parte do público, empolgante. Para outra, ameaçadora — porque desloca um centro de poder cultural que por décadas foi exclusivamente ocidental.

É esse incômodo que explica por que tantos profissionais da mídia e criadores de conteúdo, ano após ano, seguem recorrendo ao mesmo repertório: piadas sobre aparência, insinuações sobre orientação sexual, comentários que travestem preconceito de crítica. Não é acaso que os alvos sejam quase sempre os mesmos grupos asiáticos que ousaram ocupar espaços historicamente negados a eles.

A resposta mais eficaz a esse tipo de discurso continua sendo a mesma: visibilidade, contexto e memória. Cada vez que um caso como o da tal influenciadora Pietra Bertolazzi ganha repercussão e é nomeado pelo que é — não uma opinião musical, mas preconceito revestido de opinião —, fica um pouco mais difícil normalizar esse tipo de fala. E cada vez que o BTS sobe a um palco do tamanho de uma final de Copa do Mundo e é aplaudido por bilhões de pessoas, fica um pouco mais claro quem, de fato, está do lado certo da história.

https://youtube.com/shorts/_524Cy0TRq4?si=WqFgUvYsglr6vjG7

Até o próximo post!!
Marcela Fábio
Texto e Imagem: Doramazine

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *