De To Your Eternity a Violet Evergarden, estes animes não esperam você se apegar aos personagens para começar a destruir seu emocional.
Existe uma espécie de acordo silencioso quando começamos um anime dramático: primeiro você me apresenta os personagens, deixa que eu goste deles e, depois, se realmente precisar, acaba com a minha estabilidade emocional.
Os animes desta lista aparentemente não receberam esse memorando.
Algumas histórias entendem que não é preciso esperar uma temporada inteira para criar uma conexão genuína com quem está do outro lado da tela. Às vezes bastam vinte minutos, uma despedida, uma criança sozinha, uma carta que nunca foi escrita ou uma promessa que sabemos que provavelmente não poderá ser cumprida.
Inspirada por uma seleção publicada pela CBR, esta lista reúne dez animes cuja estreia já deixa claro que assistir será uma experiência emocionalmente suspeita. A matéria original destaca justamente como essas produções transformam luto, abandono e trauma em parte fundamental de sua apresentação, em vez de guardar a dor para uma grande virada posterior.
E fica o aviso: há spoilers dos primeiros episódios. Porque explicar por que eles doem sem contar absolutamente nada seria basicamente escrever dez vezes “confia em mim”.
To Your Eternity
Começar To Your Eternity sem saber nada talvez seja uma das experiências mais cruéis que um anime pode proporcionar — e digo isso como elogio.
A história nasce com uma misteriosa esfera capaz de assumir formas a partir dos estímulos que encontra. Pedra. Lobo. Humano. Parece uma premissa filosófica interessante até que o primeiro episódio nos apresenta um garoto sem nome vivendo praticamente sozinho em uma paisagem congelada.
E aí começa o problema chamado sentimento.
O menino mantém a esperança de reencontrar as pessoas que deixaram sua aldeia em busca de um lugar melhor. A solidão dele não é tratada com grandes discursos. Está na casa vazia, na paisagem branca, nas conversas com o lobo e naquela insistência dolorosamente humana de acreditar que amanhã pode ser diferente.
Quando sua jornada termina, a criatura continua caminhando usando sua forma.
Não é apenas morte. É memória.
Essa ideia atravessa To Your Eternity: existir também significa carregar um pouco das pessoas que passaram por nós. Fushi aprende sobre humanidade justamente através daquilo que perde.
Criado por Yoshitoki Oima, também autora de A Silent Voice, o anime transforma mortalidade em motor narrativo. A Crunchyroll disponibiliza a série no Brasil com legendas e dublagem em português, e o primeiro episódio tem o apropriado — e perigosíssimo — título de “A Última Pessoa”.
Onde assistir: Crunchyroll
Oshi no Ko
Se alguém vender Oshi no Ko para você apenas como “aquele anime de idols”, desconfie.
A estreia é praticamente um filme e usa esse tempo para desmontar cuidadosamente a imagem colorida da indústria do entretenimento. No centro está Ai Hoshino, idol extremamente popular que precisa sustentar uma versão pública de si enquanto esconde que se tornou mãe.
É aqui que Oshi no Ko começa a brincar com uma pergunta desconfortável: quanto de uma celebridade realmente pertence a ela quando fãs, agências e público acreditam ter algum direito sobre sua vida?
A violência que encerra o arco de Ai é devastadora, mas funciona justamente porque o episódio passou tempo suficiente construindo a contradição da personagem. Ai vende amor profissionalmente enquanto tenta descobrir se é capaz de amar verdadeiramente alguém.
Por trás das cores vibrantes, dos olhos estrelados e da estética idol, existe uma história bastante amarga sobre parasocialidade, exploração, fama e a transformação de pessoas em produtos.
E então temos Aqua.
O trauma deixa de ser apenas consequência e vira combustível para o restante da narrativa. É uma estreia que praticamente olha para quem chegou esperando música e fofura e responde: “que gracinha. Agora sente aqui”.
Baseado no mangá escrito por Aka Akasaka e ilustrado por Mengo Yokoyari, Oshi no Ko estreou em 2023. Atualmente, as temporadas disponíveis no Brasil podem ser encontradas na Crunchyroll e Netflix, embora o catálogo varie entre temporadas.
Kotoura-san
Não deixe a estética de comédia escolar enganar você.
Kotoura-san apresenta Haruka Kotoura, uma menina capaz de ler pensamentos. Em outra história, isso poderia render aventuras, situações engraçadas e algumas piadas inconvenientes. Aqui, o poder inicialmente funciona quase como uma maldição social.
Haruka é criança e simplesmente não entende por que deveria esconder aquilo que escuta na mente das pessoas. O resultado é rejeição, amizades destruídas e conflitos familiares que ela sequer possui maturidade emocional para compreender.
A parte mais triste não é apenas vê-la sendo abandonada.
É perceber quando ela aprende a esperar o abandono.
Quando conhecemos uma Haruka mais velha, sua distância emocional já parece mecanismo de defesa. Então Yoshihisa Manabe aparece e a série começa gradualmente a mudar de temperatura.
É um contraste estranho entre drama psicológico e comédia romântica — e justamente por isso a estreia ficou marcada entre quem assistiu. Antes das piadas, o anime faz questão de mostrar de onde vem a solidão da protagonista.
Kotoura-san foi lançado em 2013, tem 12 episódios e atualmente está disponível no Brasil pela Crunchyroll.
Plastic Memories
Plastic Memories comete uma pequena crueldade narrativa: praticamente entrega sua tragédia antes mesmo de você começar a torcer pelo romance.
Neste futuro, humanos convivem com Giftias, androides capazes de desenvolver personalidades, emoções e vínculos. O detalhe nada agradável é que eles possuem um tempo limitado de funcionamento.
Tsukasa Mizugaki começa a trabalhar justamente no setor responsável por recuperar Giftias que estão chegando ao fim de sua vida útil. Sua parceira é Isla, também uma Giftia.
Faça as contas emocionais.
O anime não depende da surpresa sobre o que poderá acontecer. Ele prefere algo pior: fazer o espectador saber.
Cada conversa, sorriso e pequeno momento cotidiano passa a existir sob um relógio invisível. A própria Crunchyroll descreve no primeiro episódio que os Giftias têm vida útil de 81.920 horas, aproximadamente nove anos e quatro meses.
A pergunta deixa de ser “isso vai acabar?” e passa a ser “o que fazemos sabendo que vai acabar?”.
Convenhamos: é basicamente a experiência humana transformada em romance sci-fi. Obrigada pelo lembrete existencial, anime.
Produzido pelo estúdio Doga Kobo, Plastic Memories tem 13 episódios e está disponível na Crunchyroll com legendas em português do Brasil.
Onde assistir: Crunchyroll
Erased
Imagine descobrir que consegue voltar alguns minutos no tempo sempre que uma tragédia está prestes a acontecer.
Agora imagine que, justamente quando você mais precisa desse poder, ele resolve exagerar bastante na viagem.
Essa é a porta de entrada para Erased (Boku dake ga Inai Machi), thriller protagonizado por Satoru Fujinuma, um mangaká frustrado que possui um fenômeno chamado Revival. Quando algo ruim está prestes a acontecer, ele é involuntariamente levado alguns minutos ao passado e recebe a oportunidade de impedir o desastre.
Até que uma tragédia envolvendo sua mãe muda completamente as regras.
Satoru acaba retornando à infância, em 1988, quando uma sequência de crimes envolvendo crianças marcou sua cidade. E o que poderia ser apenas um mistério temporal ganha uma dimensão emocional muito mais interessante.
Ele não está tentando simplesmente encontrar um criminoso. Está revendo pessoas, relações e sinais que sua versão infantil não conseguia compreender.
Erased fala sobre aquela fantasia impossível que quase todo mundo já teve: se eu pudesse voltar, perceberia o que não percebi? Poderia salvar alguém?
Só que responder a isso custa caro.
O anime de 2016 tem 12 episódios e está disponível atualmente no Brasil pela Crunchyroll. Vale atenção para não confundir com a adaptação live-action japonesa de 2017, que está na Netflix.
WorldEnd
O título completo já parece estar tendo uma pequena crise existencial: WorldEnd: What Do You Do at the End of the World? Are You Busy? Will You Save Us?
E, curiosamente, combina perfeitamente com a história.
Willem Kmetsch desperta centenas de anos depois de uma catástrofe e descobre algo bastante inconveniente: a humanidade foi extinta.
Ele é o último.
Não existe grande celebração por ter sobrevivido. WorldEnd entende que ser o único sobrevivente também significa não ter ninguém com quem compartilhar aquilo que você sobreviveu.
Willem acaba responsável por um grupo de garotas conhecidas como Leprechauns, utilizadas como armas contra criaturas que ameaçam as espécies restantes. Entre elas está Chtholly, cuja presença introduz outra camada à melancolia da série.
O anime começa a trabalhar então com dois tipos de pessoas condenadas: alguém que perdeu seu mundo e alguém que talvez não tenha muito futuro pela frente.
A Crunchyroll confirma que Willem desperta 500 anos após fracassar em proteger aqueles que amava e que passa a cuidar dessas “armas”. A plataforma disponibiliza os 12 episódios no Brasil com legendas em português.
Onde assistir: Crunchyroll
Tokyo Magnitude 8.0
Poucas coisas tornam uma tragédia mais angustiante do que a sensação de que ela poderia acontecer.
Tokyo Magnitude 8.0 acompanha os irmãos Mirai e Yuuki durante uma visita a Odaiba quando um terremoto de magnitude 8,0 atinge Tóquio. Em meio à destruição, eles conhecem Mari Kusakabe, que passa a ajudá-los na tentativa de voltar para casa.
A estreia funciona porque antes do desastre existe normalidade.
Mirai está irritada. Yuuki é o irmão mais novo. Existem pequenas frustrações familiares, prédios, pessoas indo e vindo, uma cidade simplesmente vivendo.
Então tudo muda.
A animação investe na sensação física da catástrofe, mas seu maior acerto está nas pessoas tentando continuar quando o ambiente conhecido deixa de oferecer qualquer segurança.
Não são heróis escolhidos, guerreiros especiais ou adolescentes com poderes secretos. São pessoas tentando chegar em casa.
E talvez seja exatamente isso que torne tudo tão desconfortavelmente próximo.
Produzido por Bones e Kinema Citrus, o anime de 2009 possui 11 episódios. Atualmente está disponível no Brasil pela Crunchyroll.
Attack on Titan
Há primeiras impressões e há o Titã Colossal aparecendo sobre a muralha de Shiganshina.
Attack on Titan não tinha intenção nenhuma de entrar discretamente na sala.
A primeira parte do episódio apresenta Eren, Mikasa e Armin dentro de uma sociedade que aprendeu a considerar as muralhas como garantia de segurança. Os Titãs existem, claro, mas permanecem do outro lado.
Até não permanecerem.
Quando o Colossal aparece e a muralha é rompida, aquela falsa sensação de proteção desaparece em minutos. E a morte de Carla, mãe de Eren, diante do filho estabelece uma ferida que definirá boa parte de suas escolhas.
Assistir novamente depois de conhecer toda a história torna a estreia ainda mais interessante. O que inicialmente parece uma origem bastante direta para uma narrativa de vingança ganha outras interpretações conforme Attack on Titan questiona liberdade, violência, nacionalismo, herança histórica e o ciclo interminável entre vítima e agressor.
Aquela criança jurando destruir todos os Titãs parece simples no episódio 1.
A série inteira existe praticamente para perguntar o quanto essa frase realmente custa.
Produzido inicialmente pelo WIT Studio e posteriormente pelo MAPPA, Attack on Titan começou em 2013 e concluiu sua adaptação animada em 2023. As quatro temporadas estão disponíveis atualmente no Brasil pela Crunchyroll.
Elfen Lied
Antes de existir toda uma geração de animes tentando viralizar com cenas chocantes, Elfen Lied já abria sua história com Lucy atravessando um laboratório e deixando um rastro de corpos.
Sem contexto. Sem preparação. Sem delicadeza.
Lançado em 2004, o anime apresenta Lucy, uma Diclonius mantida em uma instalação de pesquisa. Ela possui extensões invisíveis chamadas vectors, capazes de transformar sua fuga em um massacre.
Depois, porém, a mesma personagem aparece ferida e com uma personalidade aparentemente inocente, recebendo o nome de Nyu.
É aí que Elfen Lied fica mais interessante do que sua famosa violência gráfica sugere.
A série coloca vítima e agressora dentro da mesma personagem e obriga o espectador a conviver com esse desconforto antes de explicar completamente como ela chegou ali. Isso não absolve sua violência — e nem deveria. Mas cria uma discussão sobre abuso, desumanização e o que acontece quando alguém é tratado como monstro durante tempo suficiente.
Alguns elementos envelheceram melhor que outros, especialmente quando o anime mistura trauma severo com fanservice e determinadas escolhas de humor. Gostar da obra não exige fingir que 2004 não deixou suas digitais nela.
Elfen Lied tem uma temporada e está disponível atualmente no Brasil pela Crunchyroll.
Violet Evergarden
E finalmente chegamos à categoria “Kyoto Animation decidiu desenhar a tristeza com iluminação perfeita”.
Violet Evergarden não precisa matar alguém diante da protagonista em sua estreia para destruir o espectador. Seu sofrimento está justamente naquilo que Violet ainda não consegue compreender.
Criada e treinada como soldado, ela retorna da guerra depois de perder os braços e passa a usar próteses metálicas. Mas a maior ausência não é física.
Violet tenta compreender as últimas palavras que ouviu do Major Gilbert: “eu te amo”.
Ela conhece comandos. Missões. Obediência. Sobrevivência.
Amor? Isso ninguém ensinou.
Ao começar a trabalhar escrevendo cartas para outras pessoas, Violet passa a emprestar palavras a sentimentos que ainda não consegue reconhecer dentro de si. E essa é uma das ideias mais bonitas do anime: aprender sobre nossas próprias emoções através das histórias dos outros.
As mãos mecânicas funcionam quase como símbolo perfeito da personagem. Violet sabe executar movimentos, cumprir tarefas e continuar funcionando. Mas estar funcionando não significa necessariamente saber viver.
A animação da Kyoto Animation transforma esse processo em algo visualmente delicado, com cenários luminosos, enquadramentos cuidadosos e uma protagonista cuja rigidez vai sendo confrontada pela vulnerabilidade das pessoas que encontra.
Baseado nas light novels de Kana Akatsuki, Violet Evergarden estreou em 2018. A série está disponível no Brasil pela Netflix.
Quando o episódio 1 já sabe exatamente onde machucar
O curioso é que esses dez animes não provocam tristeza da mesma maneira.
Attack on Titan transforma trauma em combustível para a raiva. Kotoura-san prefere o abandono. Tokyo Magnitude 8.0 encontra horror na fragilidade da rotina. Plastic Memories transforma o tempo em inimigo. Violet Evergarden fala sobre alguém que sente antes mesmo de saber nomear aquilo que sente.
E To Your Eternity talvez seja o exemplo mais cruelmente bonito: alguém precisa morrer para que outra existência comece a compreender o significado de estar viva.
Essa é a diferença entre simplesmente colocar uma tragédia no primeiro episódio e construir uma estreia verdadeiramente triste. Choque passa. Sangue seca. Cliffhanger ganha resposta na semana seguinte.
Mas algumas imagens ficam.
Talvez seja um garoto caminhando pela neve. Uma idol sorrindo. Uma menina descobrindo cedo demais que ouvir os pensamentos das pessoas não significa ser compreendida por elas. Ou uma ex-soldado olhando para as próprias mãos e tentando descobrir o significado de três palavras.
Agora conta para a gente: qual anime destruiu seu emocional antes mesmo dos créditos do primeiro episódio subirem?
Porque, aparentemente, dar play também é uma forma bastante eficiente de procurar problema.
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por Kyara Y.
Colunista digital do Doramazine
Texto e Imagem: Doramazine







